Um protocolo baseado em evidências científicas — realizado, sempre que possível, sem sedação
Quando o assunto é avaliar a audição de um bebê ou de uma criança pequena, a pergunta mais importante não deveria ser apenas: “Precisa de sedação?”. Antes disso, é preciso perguntar: o exame vai realmente mostrar o quanto meu filho escuta?
Isso porque existem diferentes tipos de estímulo utilizados no BERA/PEATE. O estímulo clique avalia a integridade da via auditiva, enquanto um estímulo por frequência específica, permite estimar o quanto a criança escuta em diferentes faixas de frequência (graves, médias e agudas).
Muitos serviços realizam apenas o clique, por ser um procedimento mais rápido e simples. No entanto, o clique isoladamente não é suficiente para confirmar ou descartar, de forma precisa, a presença de perda auditiva.
Nosso protocolo: BERA/PEATE com clique e frequências específicas em todos os pacientes pediátricos
Na nossa clínica, todos os pacientes pediátricos realizam um protocolo completo de BERA/PEATE. Além do estímulo clique, incluímos sempre a avaliação por frequência específica com tone burst, nas frequências de 500, 2.000 e 4.000 Hz, e 1.000 Hz quando necessário, em diferentes intensidades.
Esse protocolo está de acordo com as diretrizes das principais entidades internacionais da área, como a American Speech-Language-Hearing Association (ASHA), o Joint Committee on Infant Hearing (JCIH) e a American Academy of Audiology (AAA). A avaliação por frequência específica permite estimar com maior precisão a audição da criança em diferentes regiões de frequência, especialmente quando ela ainda não consegue responder de forma confiável aos exames comportamentais.
Apesar dessa recomendação ser conhecida há décadas, pesquisas mostram que sua adoção na prática clínica ainda é limitada: um levantamento publicado em 2020 (Findlen e Schuller) constatou que uma parcela relevante dos serviços de diagnóstico não realizava nenhuma medida eletrofisiológica por frequência específica, utilizando apenas o clique. O motivo mais citado é que a avaliação com estímulos por frequência específica é considerada um procedimento mais longo e mais complexo de interpretar.
Entendemos essa dificuldade — e é justamente por isso que investimos em protocolo, tempo de exame e tecnologia para que nenhum paciente pediátrico saia sem a avaliação completa, independentemente da idade ou do nível de cooperação.
BERA/PEATE sem sedação, é possível?
Muitos pais chegam à clínica depois de ouvirem que o BERA somente pode ser realizado durante o sono profundo ou sob sedação/anestesia. Isso tem uma explicação: a resposta auditiva registrada é extremamente pequena e pode ser encoberta por movimentos, tensão muscular e interferências elétricas.
Por que o movimento interfere no BERA?
Durante o exame, pequenos eletrodos colados na pele captam a atividade elétrica gerada pelas vias auditivas em resposta aos sons apresentados nos fones. O problema é que piscar, falar, mastigar, se mexer ou contrair os músculos gera um sinal elétrico muito mais forte do que a resposta auditiva que estamos tentando identificar. Esse ruído é chamado de artefato fisiológico ou miogênico, e é ele — não a criança em si — o verdadeiro obstáculo para um exame confiável.
Esse desafio se torna ainda maior em um protocolo completo como o nosso: exige bem mais tempo de exame do que uma avaliação apenas por clique — e, portanto, mais tempo em que a criança precisa permanecer tranquila.
Na nossa clínica, realizamos o BERA com um equipamento que utiliza tecnologia de processamento de sinal avançada, desenvolvida especificamente para registrar potenciais evocados auditivos em condições clínicas mais desafiadoras — como é o caso de crianças pequenas ou com dificuldade de permanecer completamente imóveis.
Entre os recursos que fazem diferença estão filtros especializados, que ajudam a separar a resposta auditiva do ruído elétrico e muscular, e um sistema de ponderação dos registros conforme o nível de ruído.
Ainda assim, sempre que possível, priorizamos o sono natural da criança, que continua sendo a condição ideal para o registro. Quando ela acorda ou não consegue dormir, ainda é possível prosseguir, desde que permaneça muito quieta e tranquila — por isso, muitas vezes a criança assiste, sem som, a um desenho de sua preferência durante o exame.
O que a ciência mostra
A Dra. Andreia Lot utilizou o mesmo equipamento tanto em sua pesquisa de mestrado, realizada na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), quanto em seu doutorado, desenvolvido na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
No doutorado, foram avaliadas 130 crianças, grande parte delas com TEA, sem sedação. Os exames foram realizados com as crianças dormindo naturalmente ou acordadas e tranquilas, enquanto assistiam a um desenho silencioso de sua preferência.
Todas as 130 crianças completaram o exame com sucesso — um resultado que reforça a viabilidade dessa abordagem, mesmo em uma população conhecida por apresentar maiores desafios comportamentais durante as avaliações.
Alguns estudos internacionais
- Schornagel e colaboradores (2025), do Leiden University Medical Center (Países Baixos), publicado no International Journal of Audiology, avaliaram o BERA/PEATE, com o mesmo equipamento que utilizamos na nossa clínica, em crianças menores de 2 anos, tanto em domicílio quanto em ambiente hospitalar. Os exames foram conclusivos mesmo com a criança acordada, ou assistindo à TV — sem necessidade de sedação ou de sono.
- Elsayed e colaboradores (2015), publicado em Ear and Hearing, avaliaram 145 bebês sem sedação. Confirmaram ser possível obter limiares confiáveis por frequência específica mesmo sem sono adequado — informação essencial para a indicação e o ajuste de aparelhos auditivos. Também utilizaram o mesmo equipamento.
- Jones e colaboradores (2020) avaliaram crianças de 2 a 3 anos com TEA e com desenvolvimento típico, sem sedação, usando uma estratégia simples: a criança confortável, assistindo a um filme de sua escolha. Concluíram que crianças pequenas com TEA podem completar a avaliação sem sedação, desde que o ambiente e a abordagem sejam adaptados às suas necessidades.
Como é realizado na prática
Para recém-nascidos e bebês pequenos, o sono natural costuma oferecer condições ideais para o registro. Crianças maiores podem permanecer no colo dos pais, deitadas ou sentadas, dormindo ou alternando períodos de sono e vigília ao longo do exame — sempre priorizando o sono, mas sem depender exclusivamente dele.
Quando necessário, incluímos pausas para alimentação, troca de fralda ou para que a criança se acalme. Um protocolo completo, que avalia diferentes frequências, intensidades e os dois ouvidos, pode levar mais de duas horas — tempo necessário para respeitar o ritmo de cada criança sem comprometer a qualidade do resultado.
Vale destacar: mesmo com toda a tecnologia disponível, algumas condições precisam ser respeitadas, e em situações pontuais o exame pode precisar ser complementado ou reagendado. A sedação e a anestesia continuam sendo necessárias em determinados casos e, quando indicadas, devem ser realizadas por equipe médica habilitada, em ambiente apropriado e com monitoramento adequado.
Nossa proposta não é afirmar que a sedação nunca é indicada, e sim mostrar que ela não precisa ser a única possibilidade simplesmente porque a criança é pequena, tem TEA ou apresenta dificuldade de cooperação.
Em resumo
- Sem sedação, sempre que possível: um complemento importante, não o objetivo principal — o que realmente garante um diagnóstico confiável é um protocolo eficaz.
- Protocolo completo, em todos os pacientes pediátricos: estímulo clique + frequência específica (tone burst), conforme as diretrizes da ASHA, do JCIH e da American Academy of Audiology.
- Tecnologia a serviço do protocolo: filtros e processamento de sinal avançados que ajudam a manter a qualidade do registro mesmo em exames mais longos.
Se você tem dúvidas sobre a audição do seu filho ou recebeu indicação para realizar o BERA/PEATE, entre em contato conosco. Nossa equipe pode esclarecer todas as suas questões e agendar a avaliação com o protocolo completo, incluindo o exame por frequência específica.
Fale conosco: (11) 99109-6767
Referências
American Speech-Language-Hearing Association. Guidelines for the Audiologic Assessment of Children From Birth to 5 Years of Age. Rockville, MD: American Speech-Language-Hearing Association; 2004. doi:10.1044/policy.GL2004-00002.
Elsayed AM, Hunter LL, Keefe DH, Feeney MP, Brown DK, Meinzen-Derr JK, et al. Air and bone conduction click and tone-burst auditory brainstem thresholds using Kalman adaptive processing in nonsedated normal-hearing infants. Ear Hear. 2015;36(4):471–481.
Findlen UM, Schuller ND. Audiologic clinical practice patterns: infant assessment. J Early Hear Detect Interv. 2020;5(1):28–46. doi:10.26077/7d63-zd27.
Hall JW, Sauter T. Clinical experience with new technology for recording unsedated ABRs. Apresentado em: Annual Meeting of the American Academy of Audiology; 2010; San Diego, CA.
Joint Committee on Infant Hearing. Year 2019 position statement: principles and guidelines for Early Hearing Detection and Intervention Programs. J Early Hear Detect Interv. 2019;4(2):1–44.
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Lot ABO. Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico (PEATE) com clique e tone burst em crianças com TEA: uma ferramenta essencial para avaliação auditiva [tese de doutorado]. São Paulo: Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; 2025.
Schornagel FAJ, Soede W, Vossen ACTM, Oudesluys-Murphy AM. Enhanced auditory brainstem response device (Vivosonic Integrity) in young children, in the child’s home and hospital. Int J Audiol. Publicado on-line em 30 set. 2025. doi:10.1080/14992027.2025.2502441.
Stapells DR, Gravel JS, Martin BA. Thresholds for auditory brain stem responses to tones in notched noise from infants and young children with normal hearing or sensorineural hearing loss. Ear Hear. 1995;16(4):361–371.


